© 2019 by Edu-Midia. Proudly created with Wix.com

  • Jessica Santos

A nova ordem global da desinformação

De acordo com relatório publicado recentemente pelo Oxford Internet Institute, a propaganda computacional - o uso de algoritmos, automação e big data para moldar a vida pública, tornou-se uma ferramenta de controle da informação em governos autoritários de três formas: suprimindo direitos humanos fundamentais, desacreditando oponentes políticos e abafando opiniões divergentes.


Em 2019, foram identificadas ações de manipulação em 70 países, índice que cresceu 150% desde 2017, e os autores do estudo alertam para o uso orquestrado das redes sociais na amplificação da desinformação, na incitação à violência e na crescente desconfiança da sociedade nas instituições, como governo e imprensa. Abaixo mais destaques do estudo:


  • 75% dos países usaram desinformação e manipulação da mídia para enganar os usuários.

  • 68% dos países usam conteúdo patrocinado pelo Estado para atingir dissidentes políticos, oposição ou jornalistas.

  • 89% usam propaganda computacional para atacar a oposição política.


As tropas cibernéticas estão aproveitando as mídias sociais para moldar a opinião pública, definir agendas políticas e propagar ideias. E deveríamos nos preocupar com tudo isso.

Crédito: Lam Yik Fei - The New York Times

O relatório afirma que a China aparece como uma nova potência em campanhas de desinformação. Após os protestos de Hong Kong, o país passou a direcionar os esforços de manipulação das plataformas domésticas para uma estratégia ampla utilizando as redes sociais, que são proibidas no país, mas são capazes de mostrar para o mundo as narrativas do governo. Estima-se que aproximadamente 300.000 a 2.000.000 de pessoas trabalham em escritórios locais e regionais nesta operação de guerra. Além disso, a China desperta de maneira mais agressiva o sentimento nacionalista e anti-ocidental usando as mídias estatais e sociais, e manipulou o contexto de imagens e vídeos para minar os manifestantes. As autoridades chinesas começaram a classificar as manifestações como um prelúdio ao terrorismo, e disseminando uma versão de uma pequena gangue violenta, sem apoio de moradores e provocada por agentes estrangeiros, está correndo solta, exigindo a independência de Hong Kong e destruindo a China.



Hong Kong e a marcha pró-democracia e liberdade


Desde junho, a população de Hong Kong realiza diversos protestos em resposta a um projeto de lei apresentado em abril que previa que pessoas acusadas de crimes contra a China continental poderiam ser extraditadas da ilha, que hoje faz parte da China sob um acordo conhecido como "um país, dois sistemas", que garante um certo nível de autonomia, como ter seu próprio Judiciário e um sistema legal separado da China continental.


Os manifestantes foram às ruas reivindicar que a lei fosse cancelada, pois poderia causar aos extraditados um julgamento injusto e colocar ativistas e jornalistas em risco. A cidade é atualmente um dos poucos lugares do território chinês onde as pessoas podem recordar publicamente a repressão a manifestantes na Praça Tiananmen, em Pequim, em 1989. A lei foi suspensa, mas os protestos evoluíram para um movimento pró-democracia, alimentado por temores de que as liberdades de que Hong Kong desfruta em relação ao governo central chinês estejam sendo destruídas, e chega a 2.300 o número de pessoas presas desde junho.



Em um esforço para pintar os manifestantes como terroristas para o exterior, o governo chinês lançou uma campanha de desinformação online nas redes sociais. O Twitter e o Facebook anunciaram a suspensão de quase mil contas ativas vinculadas a uma campanha de influência coordenada, enquanto o YouTube desativou 210 canais suspeitos de fazer parte da disseminação de conteúdos pró governo chinês.


A Universidade de Hong Kong (HKU) está examinando imagens, vídeos e qualquer informação dos protestos antigovernamentais em andamento, tentando descobrir quais são reais, enganosos ou falsos. É um trabalho árduo. Somente em setembro, havia nada menos que 5.000 imagens compartilhadas em um único canal do Telegram.


O episódio Hong Kong pode fortalecer o governo chinês em uma guerra digital nas eleições democráticas de outros países, assim como os russos já vem interferindo.



Ilustração: Kaliz Lee

27 visualizações