• Jessica Santos

Discursos de ódio, fake news, boatos e o papel da educação midiática

Em entrevista para a Folha de São Paulo, Tomás Durán Becerra, pesquisador em estudos para a União Europeia sobre educação midiática, diretor de pesquisa da Universidade CUN (Corporação Unificada Nacional de Educação Superior) da Colômbia e membro associado da rede da Unesco para o desenvolvimento global em alfabetização para a mídia, a informação e o diálogo intercultural, a Milid (na sigla em inglês), reforça a importância do trabalho de educação midiática para lidar com os discursos de ódio, boatos, fake news, golpes, corrupção, julgamentos equivocados, fraudes e manipulação em processos eleitorais que presenciamos atualmente.


Tomás comenta que o advento da tecnologia da informação e da comunicação, das redes sociais, novas mídias, dos aplicativos etc. tem reforçado a necessidade de ensinar as pessoas a se relacionar com tudo isso. "Não falamos agora apenas dos modos mais tradicionais de informação e da comunicação. Hoje em dia, alfabetização para a mídia tem a ver com a quantidade de dados que os aplicativos reúnem (localização, contatos, fotos), com a proteção desses dados, privacidade, entre outros temas. É um direito estendido ao da alfabetização, que concede acesso ao debate democrático".


Educação midiática urgente!


Em carta aberta para celebrar os 28 anos da tecnologia por trás da web, Tim Berners-Lee elegeu três grandes ameaças à World Wide Web e à democracia: compartilhamento de dados pessoais, desinformação e propagandas políticas. Para o criador do www, é extremamente preocupante que informações incorretas ou fake newscriadas para atrair nossos preconceitos, possam se espalhar como um incêndio na internet. A onda de fake newsalcançou seu ápice nos Estados Unidos durante a eleição do presidente Donald Trump, em 2016. Análise do Buzzfeddmostrou que, nos três últimos meses de campanha, 20 histórias falsas relacionadas ao processo eleitoral geraram 8,711 milhões de compartilhamentos, reações e comentários no Facebook.


No Brasil, cerca de 12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política, de acordo com levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação (Gpopai) da Universidade de São Paulo (USP). Em 2018, a morte da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista Anderson Pedro Gomestambém se tornou um caso emblemático do alcance das fake news. No dia seguinte ao assassinato, que causou uma comoção internacional, começaram a circular áudios, fotos e notícias que tentavam associar a vereadora ao crime organizado e ao abuso de drogas, em uma série de ações ofensivas à honra de Marielle. O caso foi levado à Justiça, que determinou que todas as fake newsfossem retiradas do ar.


Aproximadamente 66% dos brasileiros utilizam as redes sociais como principal fonte de notícias e pesquisa sobre informação online da Aos Fatos revela que metade dos entrevistados já tomou decisões baseadas em informações falsas. Existe um consenso de que o consumo de notícias depende muito da demanda da sociedade por informações de qualidade e uma maturidade na utilização da internet, e a escolha de milhões de pessoas em torno de clicar e compartilhar informações falsas acaba determinando uma disseminação desenfreada e extremamente perigosa para a democracia.


Este é um momento crucial para a amplificação e disseminação da educação midiática para compreender, interpretar e refletir sobre confiabilidade e da credibilidade das notícias e informações. Como reforça o Digital News Report de 2018, diferentes atores – de educadores e empresas de tecnologia – acreditam que investir na educação midiática possa incentivar as pessoas a separar fatos de ficção, limitando potencialmente a disseminação de informações falsas ao deixá-las melhor equipadas para navegar com segurança nos ambientes de mídia.





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