• Jessica Santos

Preconceito move indianos a disseminarem ódio no WhatsApp, aponta estudo da LSE

A London School of Economics and Political Science (LSE) acaba de lançar o estudo WhatsApp Vigilantes: an exploration of citizen reception and circulation of WhatsApp

misinformation linked to mob violence in India, num esforço para apresentar uma tipologia da desinformação digital na Índia e orientar os trabalhos de instituições reguladoras, empresas de tecnologia, ativistas civis, interessados ​​em educação midiática e educação política. Os resultados ressoam em países que vêm sofrendo os efeitos da desinformação, como EUA, Israel, Paquistão, Brasil e Indonésia. 


Conduzida por Shakuntala Banaji, Ram Bhat, Anushi Agarwal, Nihal Passanha e Mukti Sadhana Pravin, do Departamento de Mídia e Comunicação da LSE, a pesquisa relaciona o uso do WhatsApp para espalhar desinformação e o aumento de linchamentos no país. O número de ataques a civis inocentes cresceu exponencialmente nos últimos cinco anos. Desde 2014, houve mais de cem casos de linchamento contra membros de comunidades discriminadas, e o aplicativo e outras mídias sociais tornaram-se vetores de disseminação de discursos de ódio, misoginia e racismo no país que concentra o maior número de usuários de redes sociais no mundo. São 300 milhões no Facebook, 200 milhões no WhatsApp e 250 milhões no YouTube. O TikTok, serviço chinês de mensagens em vídeo atrai mais de 88 milhões de pessoas, além de aplicativos locais, como o ShareChat, com 40 milhões de pessoas que podem se comunicar em 14 línguas locais.


"Em 2019, enquanto 900 milhões de pessoas se preparavam para eleger os representantes do Parlamento, a desinformação e os discursos de ódio dominaram as redes sociais do país, criando uma crise de saúde pública como as pandemias do século passado". (Samir Patil, editor do site indiano Scroll, em artigo para o NYT)


Crédito: Shiv Ahuja

Histórico


Entre janeiro de 2017 e julho de 2018, o compartilhamento generalizado de boatos levou a uma onda de violência com pelo menos 33 mortos em 69 incidentes. Os casos forçaram o WhatsApp a restringir o número de vezes em que mensagens trocadas por meio do aplicativo podem ser encaminhadas, com um rigor ainda maior no país.

Além disso, a empresa anunciou a desativação do botão exibido ao lado de mensagens contendo foto, áudio e vídeo e que facilita seu reenvio para várias outras pessoas. Por outro lado, críticos do governo indiano acusam-no de usar a plataforma como um conveniente bode expiatório, ao mesmo tempo em que não aborda suficientemente questões subjacentes de intolerância, policiamento fraco, divisões de castas e retórica nacionalista que alimentou a violência repetidas vezes. O WhatsApp transformou a vida cotidiana do país, com mais de 200 milhões de usuários – o maior mercado no mundo -, e acabou sendo utilizado muito além das trocas privadas de mensagens.

Embora as vítimas tenham sofrido por diferentes motivos, esses incidentes têm em comum multidões que usam aplicativos de mensagens para espalhar mentiras sobre as vítimas e para mobilizar, defender e, em alguns casos, documentar e circular imagens dos linchamentos e atitudes violentas.


Share joy, not rumors


Uma das iniciativas do WhatsApp para tentar frear os efeitos da desinformação foi a campanha Share Joy, Not Rumors (Compartilhe alegrias, não boatos), disseminada na internet e nos principais meios de comunicação da Índia. Abaixo, dois vídeos da série, veiculados no Youtube:






Apesar dos esforços, a pesquisa da LSE mostra que a atmosfera na Índia vem se tornando cada vez mais autoritária, antidemocrática e volátil, com perseguições políticas a comunidades específicas, como dalits, muçulmanos, adivasis, caxemires e cristãos. A onda nacionalista, movida pela ideologia Hindutva, deseja reconfigurar a Índia como uma nação dominada pelo hindu, mantendo uma posição hegemônica em relação aos simbólicos

aspectos da vida social. Mesmo tirando milhões da pobreza, aumentando as taxas de educação e construindo uma das economias que mais crescem no mundo, a influência das castas — uma ordem social enraizada nas escrituras hindus e baseada em uma identidade determinada pelo nascimento— permanece generalizada na Índia, mesmo após a Constituição ter abolido o sistema há mais de 50 anos. A sociedade permanece hierarquizada, e os deveres e benefícios concedidos às pessoas variam de acordo com a posição na escala do sistema. Quanto mais baixa a casta, maiores são as restrições de movimento, de alimentação e de estudo dos textos sagrados.

Uma descoberta importante do estudo é exatamente de que os atos de violência são direcionados para estes grupos, que atraem a desconfiança generalizada, ódio, desprezo e suspeita das castas superiores. Usuários do WhatsApp estão predispostos a acreditar em desinformação e a compartilhar informações erradas sobre grupos discriminados, e independentemente da imprecisão de fontes ou das postagens, as pessoas tendem a corresponder e validar a mensagem de acordo com seu próprio conjunto de preconceitos ideológicos, posições e crenças carregadas de vieses.


Atualmente, os vídeos estão sendo enviados com o propósito de disseminar o ódio. Por exemplo, no vídeo em que um garoto estava amarrado a um árvore e havia homens batendo nele, pode-se apenas editá-lo e adicionar uma touca de caveira a um homem batendo no garoto. É isso aí, agora se tornou hindu vs muçulmanos. Mas, na realidade, ele pode ser hindu [fazendo o espancamento], mas é feito para parecer que ele é muçulmano e isso cria mal-entendidos. Depois que esses vídeos são encaminhados e as pessoas assistem, fica arraigado em nossas mentes e começamos a brigar com pessoas de outras religiões. (Entrevista com jornalista em Mumbai, estudo da LSE, p. 38)

Ao construir uma tipologia de usuários do WhatsApp, os pesquisadores descobriram que os homens hindus de casta alta e média rural e urbana com maior conhecimento tecnológico têm maior probabilidade de compartilhar tipos específicos de desinformação e discurso de ódio. O fato de esses usuários serem alfabetizados digitalmente sugere que o preconceito, e não o analfabetismo digital, está por trás da disseminação da desinformação.


Os autores recomendam fortemente que o WhatsApp empregue equipes treinadas em temáticas políticas, históricas, sociais, direitos humanos, jornalismo e tecnologia na Índia para entender e desafiar as conexões entre o preconceito comunitário existente, a desinformação e as ondas de violência que desencadeiam em linchamentos.


Em resposta a doenças infecciosas, durante um período de mais de um século, as nações criaram a infraestrutura de saúde pública - uma combinação de instituições públicas e privadas que rastreiam surtos, financiam pesquisas, desenvolvem medicamentos e prestam serviços de saúde. Precisamos de uma resposta semelhante para enfrentar desinformação e notícias falsas. A epidemia nos ensinou que a educação do cidadão é o primeiro e mais importante passo para uma solução. Sem o amplo conhecimento de que lavar as mãos com sabão pode prevenir infecções, todas as outras intervenções teriam afundado sob o grande volume de pacientes. Nenhum número de ajustes no algoritmo do Facebook, nenhum tamanho de equipes de verificação de fatos, nenhuma quantidade de regulamentações governamentais pode ter o mesmo impacto que um cidadão que examina criticamente as informações que estão circulando. (Samir Patil)

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