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  • Jessica Santos

Se a educação fosse prioridade no Brasil, sofreríamos tanto com as fake news?

“A desinformação é inútil contra cidadãos bem-educados”, twitou Rob Goldman, vice-presidente do Facebook, sobre a Finlândia e o combate à guerra da informação imposta pela Rússia de Vladimir Putin. O próprio governo finlandês considera o forte ensino público uma importante ferramenta para resistir aos impactos da desinformação. Em 2014, os riscos da deepfake e das ameaças russas já eram discutidos em sala de aula como parte da abordagem multissetorial e intersetorial que o país está adotando para preparar a população para lidar com o complexo cenário digital que vivemos. Ações como essas representam muito bem o papel da educação midiática (media literacy, em inglês) em preparar os cidadãos para acessar, analisar, criar e participar de maneira crítica do ambiente informacional e midiático em todos os seus formatos — dos impressos aos digitais.


Apesar de comandar uma das empresas que faz muito mais parte do problema do que da solução, Rob levanta uma questão importante sobre os impactos da desinformação onde a educação é prioridade. Em 2017, o Open Society Institute - Sofia, uma organização não-governamental sediada na Bulgária, criou o Media Literacy Index para avaliar como os países europeus estão lidando com a pós-verdade e os efeitos da desinformação. Finlândia, Dinamarca e Holanda lideram, enquanto Albânia, Turquia e Macedônia ocupam as últimas posições. Como regra, os piores resultados estão relacionados ao baixo desempenho educacional e à dificuldade em garantir a liberdade de imprensa.


Isso porque a metodologia do Media Literacy Index considera quatro indicadores, cada um com um peso na nota geral. O primeiro é a liberdade da mídia (40%), que abrange o relatório Freedom of the Press, da Freedom House e a posição no ranking mundial da liberdade de imprensa do Repórteres sem Fronteiras. A qualidade da educação (45%) vem em seguida, medida pelas notas do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) nas áreas de leitura, ciências e matemática e também a porcentagem da população com ensino superior. O terceiro é o indicador de confiança calculado pelo Eurostat (10%) e, por último, os índices do e-participation (5%), uma iniciativa da ONU para promover o envolvimento cívico e a governança aberta e participativa dos cidadãos.


E o Brasil?


Para além de comparações entre países, o índice provoca as nações a refletirem sobre o que pode ser feito para mitigar os sintomas de uma sociedade pautada pela desinformação. Seria muito útil estabelecer um ranking mundial de media literacy, considerando que apenas o índice de confiança utilizado no estudo não é um dado comparativo global. Provavelmente os resultados não seriam muito positivos para o Brasil. Em educação, as notas do Pisa de 2015 colocam o país em 59º lugar em leitura, 66º em matemática e 63º em ciências. Apenas como exemplo, dentre os 35 países avaliados pelo Media Literacy Index, nossa classificação geral no Pisa está acima apenas da Macedônia, última colocada no ranking europeu.


No indicador liberdade de imprensa, ocupamos o 105º lugar no ranking do Repórter sem Fronteiras, que mede se os jornalistas podem exercer com total segurança sua atividade profissional. São avaliados 180 países e territórios, e hoje somos considerados um local em situação problemática.


Quando o assunto é a confiança nas instituições, também não caminhamos bem. Os resultados do Digital News Report revelam que 44% da população desconfia das organizações de mídia, enquanto o Índice de Confiança Social, realizado pelo IBOPE, indica que a crença da população nos meios de comunicação caiu de 71%, em 2009, para 51%, em 2018.


Como mostra o ranking elaborado pelo Open Society Institute - Sofia, as democracias que estão conseguindo resistir à onda tóxica de desinformação investem em educação para formar cidadãos críticos, que confiam e protegem a imprensa e participam ativamente do debate público. A perspectiva é de que desinformação deva ganhar ainda mais força nos próximos anos, considerando o avanço da tecnologia, a polarização extrema entre grupos que pensam diferente e utilizam redes sociais para disseminar ódio com mensagens enganosas, e a inércia de muitos governos em cortar as raízes do problema. Por enquanto, lideramos um ranking que não dá muito orgulho: o de país com o maior número de pessoas que já acreditou em uma notícia que, na verdade, era boato, de acordo com pesquisa recente da Ipsos. Temos muito o que aprender e ainda mais a colocar em prática.